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A mesma

#CrônicadeSexta

Acordou pela manhã e logo notou um parafuso caído ao lado da cama. Perguntou para o marido – “deve ser do relógio”. Olhou com cuidado para o objeto, era bem feito, parecia ser de alguma coisa de valor, guardou-o na gaveta e foi tomar um banho.

Encarou o próprio rosto no espelho. Aquele velho conhecido de tanto tempo. “O tempo passa, mas você continua a mesma”, era o que os amigos sempre lhe diziam. A frase da qual tanto se orgulhava pareceu assumir um sentido diferente naquele instante… “a mesma”.

Preferiu apenas amarrar o cabelo, lavou o rosto e foi tomar o café da manhã. Pão integral com uma fatia de queijo branco e um suco de laranja. Quando foi que havia parado de tomar leite com achocolatado? Provavelmente logo depois da adolescência.

Ligou o carro e foi dirigindo pelo mesmo caminho. “O carro quase vai sozinho”, ela dizia brincando, mas não deixava de ser uma verdade. Quantas vezes, assim que estacionava o carro, nem mesmo sabia como havia chegado lá? Olhou para o edifício que frequentava há tantos anos. Desde quando havia perdido a paixão por seu trabalho? Tudo parecia ser feito de maneira tão automática que, ao final do dia, quando a perguntavam, meio sem lembrar exatamente o que tinha feito, ela respondia: “o mesmo”.

“O tempo passa, mas você continua a mesma”… e o tempo não deixa de passar, nunca! Então, ela tomou a decisão de mudar drasticamente sua vida, deixaria o emprego, mudaria para o interior para abrir aquela empresa própria que sempre desejou! Não conseguiu esperar, inventou uma desculpa qualquer sobre o falecimento de um parente distante e correu para casa. Com empolgação contou tudo ao marido. Ele a olhou com uma expressão preocupada, abriu a gaveta do criado e pegou o parafuso.

 – Quando você saiu, liguei para aquele rapaz que conserta de tudo. Ele disse que esse parafuso caiu da sua cabeça… mas não precisa se preocupar, amanhã mesmo ele vem para colocar o parafuso no lugar, e você vai voltar a ser a mesma.

 

Marcelo

 

 

Espero que tenham gostado e até o próximo post!

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Por: Lóren Santos | 28/08/2015 | Cultura

Vivendo de Janela

#CrônicadeSexta

Dizem que, certa vez, Bezerra da Silva encontrou um homem em sua cama, junto com sua mulher, vestindo um pijama que ele nunca tinha usado. Sem ficar exaltado, ele acendeu o cigarro e disse que os dois poderiam ir embora, mas que deixassem o pijama. O fato, que já daria uma boa narrativa, foi uma das muitas desilusões amorosas que inspiraram o compositor a criar um samba que começa assim

A minha vizinha vive de janela

Tomando conta da vida dos outros

Que morena linda abraçada com velho

Que velha mais feia agarrada com broto

Que cara tão magro com moça tão gorda

Que gordo mais feio com moça tão bela

A janela, que já foi a profissão de muita gente, hoje está afastada do mundo exterior por grades e muros altos. Assim como os datilógrafos, vendedores de enciclopédia e telefonistas, as faladeiras precisaram se atualizar para manter o ofício. Nos dias atuais, consigo imaginar Bezerra sentado, cavaquinho na mão, vestindo o famoso pijama e compondo

A minha vizinha vive de internet

Tomando conta da vida dos outros

Que roupa mais curta dessa piriguete

Que saia mais longa parece que é santa

Que pessoa simples só pode ser pobre

Que menina chique virou uma esnobe

Vou ficando por aqui, para não arriscar falar demais, afinal… “a minha boca é um túmbalo!”

 

Marcelo

 

Espero que tenham gostado e até a próxima #crônicadesexta

 



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Por: Lóren Santos | 21/08/2015 | Cultura

O ônibus errado

#CrônicadeSexta

Toda sexta aqui no blog além da programação normal teremos um espaço para cultura. Não é só de futilidades uteis que vivemos não é mesmo? Então, toda sexta o novo colaborador do blog Marcelo Dias (que tenho orgulho de falar que é meu Marido) irá publicar crônicas. Pra quem ama crônicas assim como eu ou gosta de uma leitura tranquila pra descansar a cabeça dos problemas do dia a dia esse será o espaço perfeito pra você.

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Apresento a primeira crônica do Blog Lóren Santos

O ônibus errado

A estação de ônibus era grande e ele teria que passar por todas as plataformas antes de chegar a seu ponto. “Por que sempre tem que ser a última?”. O cansaço do final do dia era grande, tão grande quanto a vontade de chegar em casa, tomar um banho, dar um abraço na esposa e descansar. Apressou o passo, àquela hora, não eram muitos os passageiros que seguiriam na mesma viagem e, assim, a parada na estação era breve. Viu o ônibus se aproximar da plataforma, correu e conseguiu chegar a tempo. Sentou com a cabeça girando, culpa do sedentarismo, alguns poucos metros e ele já estava esbaforido.

A viagem durava em torno de uma hora, então, tirou da mochila um livro que começara a ler naquela manhã, encontrou o ponto da página no qual havia parado. O ônibus parou na estação seguinte e roubou sua concentração por alguns segundos, poucos passageiros entraram, nenhum sentou-se a seu lado e a viagem prosseguiu. Concentrado, não percebeu as paradas seguintes. Olhou pela janela, onde estavam? Não reconhecia aquele lugar! Lembrou-se da correria na estação… tinha pegado o ônibus errado… que idiotice! E agora? Olhava desesperado para a paisagem escura, nenhum prédio, outdoor ou propaganda política conhecida. Não poderia descer antes de identificar, pelo menos, onde tinha parado… a paisagem começava a mudar gradualmente, postes davam lugar a árvores e a iluminação tornava-se cada vez mais precária… prédios e casas apareciam cada vez mais espaçados e iam reduzindo de tamanho… que lugar era aquele? De repente, um solavanco do ônibus o fez perceber que trafegavam agora por uma estrada de terra… lá fora, teve a nítida impressão de ter avistado um animal grande, talvez um cavalo ou uma vaca… as árvores eram cada vez maiores… agarrou-se à mochila, como para buscar alguma segurança… a única luz vinha do próprio ônibus, que, cada vez mais, destoava da paisagem selvagem que o cercava… olhou em volta, não havia mais nenhum passageiro… os bancos de madeira da carruagem estavam vazios… teria de perguntar ao cocheiro. O lado racional de sua mente deu-lhe um beliscão! Mas ainda estava atordoado… como pôde parar naquele lugar? Um artista entrou no ônibus, pegou uma flauta e começou a tocar para um furão vestido com roupas de passista, que aproximou-se dele e disse: “Mano, tem um trocado?”.

Assustado, abriu os olhos e percebeu o mundo conhecido a seu redor! Conhecia aquele muro, aquele poste, a passarela, o mercado! Fechou o livro, guardou-o na mochila e deu o sinal. Desceu alegre, apesar dos quilômetros que ainda o separavam de sua casa, pois havia desembarcado bem antes de seu ponto habitual. Não estava preocupado, queria apreciar cada lugar conhecido no caminho. Chegou em casa, a esposa perguntou sobre o atraso e ele respondeu sorrindo: “peguei o ônibus errado”.

 Marcelo
 Espero muito que vocês tenham gostado do novo espaço do blog. Até mais!

 

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Por: Lóren Santos | 07/08/2015 | Cultura