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A alegoria da Formiguinha

#CrônicadeSexta

 

Era uma formiga entre todas as outras milhares e milhares de formigas. Nada de diferente acontecia em seus dias que consistiam em sair para procurar alimento, avisar às demais formigas e voltar a procurar alimento. Sempre e sempre, todos os dias.

    Mas veio o primeiro inverno de sua vida e o primeiro floco de neve começou a cair, cair e pousou bem em seu pé, que ficou preso. Tentou de várias formas se soltar, mas não tinha forças. Então, olhou para o sol e pediu: “Por favor, derreta a neve e salve-me!”, mas o sol não gostava de trabalhar no inverno, então inventou uma desculpa qualquer: “Peça ao muro, que me tapa”. Ainda esperançosa, ela disse ao muro: “Ó, poderoso muro que tapa o sol, salve-me!”, e o muro, obviamente, não respondeu, pois não há nenhuma história sobre muros falantes! Então, a formiguinha viu um rato saindo do muro e pensou que ele poderia ajudá-la, mas o rato também não ouviu. E assim foi se repetindo a história, gato, cão, homem todos passaram e não se apiedaram da formiguinha.

    Já quase sem forças, com muito frio, a formiguinha fez um último pedido: “por favor, que na próxima vida eu seja um animal por quem os outros se importem… quem sabe um panda… todo mundo adora pandas”.

 

Marcelo

 

 

 

 

 

Espero que tenham gostado!! E até mais!!

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Por: Lóren Santos | 18/03/2016 | Cultura

50%

#CrônicadeSexta

 

Desde o início da noite ela estava sentada em frente ao computador, tentando terminar o texto que havia começado há meses atrás. Em sua mente, via o livro se completando, mas as palavras não se transferiam para tela. Olhou para a mesa de trabalho, vários documentos se acumulavam, também esperando uma conclusão. Estava cansada, àquela hora da noite, não conseguiria mais produzir qualquer coisa.

    Levantou-se e deixou o copo com o resto de café frio sobre a mesa. Saiu do escritório e caminhou pela casa em direção ao quarto. Na sala, caixas aguardavam sua atenção para organização dos objetos e uma bicicleta com pneus murchos revelava a intenção não cumprida de uma vida saudável ao ar livre. Abriu a porta do armário para trocar de roupa. Separou o pijama em meio a várias peças nunca usadas que ela havia prometido separar para doação, mas nunca teve tempo. O cansaço era grande e adormeceu logo que se deitou na cama.

    Pela manhã, o celular a despertou com a música que já deixou de ser a sua favorita, pegou-o para desligar e viu que ele marcava somente as horas… a parte que marcava os minutos não estava lá, ela segurava apenas metade do celular. Olhou em volta, tudo estava ao meio! Estava deitada sobre metade de uma cama, vendo metade da TV que ficou ligada durante a noite. Sobre metade do criado mudo, metade de um copo ainda retinha água em seu interior. Correu para o banheiro e olhou para a metade restante do espelho… com apenas um olho, via metade de si mesma! Viu-se como cortada ao meio, órgãos internos todos visíveis… um coração bombeava sangue para apenas um dos pulmões! Desesperada, sentiu desejo urgente por uma xícara de café e correu para a cozinha… parou de repente, quase caindo do abismo de seu meio apartamento. Nada daquilo fazia sentido… como tudo funcionava estando partido? Como viver uma vida pela metade?

Conformada, sentou-se em frente ao computador, com apenas uma das mãos, retomou o trabalho do dia anterior… tomou o resto do café frio do dia anterior e recolocou a xícara inteira sobre a mesa. A cada palavra que escrevia, sentia-se mais completa até que, finalmente, abriu os olhos…

Crônica quase autobiográfica, inspirada por (e não em) “O Visconde Partido ao Meio”, de Ítalo Calvino.

Marcelo

Espero muito que tenham gostado e até mais!

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Por: Lóren Santos | 19/09/2015 | Cultura,Diversão

O ônibus errado

#CrônicadeSexta

Toda sexta aqui no blog além da programação normal teremos um espaço para cultura. Não é só de futilidades uteis que vivemos não é mesmo? Então, toda sexta o novo colaborador do blog Marcelo Dias (que tenho orgulho de falar que é meu Marido) irá publicar crônicas. Pra quem ama crônicas assim como eu ou gosta de uma leitura tranquila pra descansar a cabeça dos problemas do dia a dia esse será o espaço perfeito pra você.

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Apresento a primeira crônica do Blog Lóren Santos

O ônibus errado

A estação de ônibus era grande e ele teria que passar por todas as plataformas antes de chegar a seu ponto. “Por que sempre tem que ser a última?”. O cansaço do final do dia era grande, tão grande quanto a vontade de chegar em casa, tomar um banho, dar um abraço na esposa e descansar. Apressou o passo, àquela hora, não eram muitos os passageiros que seguiriam na mesma viagem e, assim, a parada na estação era breve. Viu o ônibus se aproximar da plataforma, correu e conseguiu chegar a tempo. Sentou com a cabeça girando, culpa do sedentarismo, alguns poucos metros e ele já estava esbaforido.

A viagem durava em torno de uma hora, então, tirou da mochila um livro que começara a ler naquela manhã, encontrou o ponto da página no qual havia parado. O ônibus parou na estação seguinte e roubou sua concentração por alguns segundos, poucos passageiros entraram, nenhum sentou-se a seu lado e a viagem prosseguiu. Concentrado, não percebeu as paradas seguintes. Olhou pela janela, onde estavam? Não reconhecia aquele lugar! Lembrou-se da correria na estação… tinha pegado o ônibus errado… que idiotice! E agora? Olhava desesperado para a paisagem escura, nenhum prédio, outdoor ou propaganda política conhecida. Não poderia descer antes de identificar, pelo menos, onde tinha parado… a paisagem começava a mudar gradualmente, postes davam lugar a árvores e a iluminação tornava-se cada vez mais precária… prédios e casas apareciam cada vez mais espaçados e iam reduzindo de tamanho… que lugar era aquele? De repente, um solavanco do ônibus o fez perceber que trafegavam agora por uma estrada de terra… lá fora, teve a nítida impressão de ter avistado um animal grande, talvez um cavalo ou uma vaca… as árvores eram cada vez maiores… agarrou-se à mochila, como para buscar alguma segurança… a única luz vinha do próprio ônibus, que, cada vez mais, destoava da paisagem selvagem que o cercava… olhou em volta, não havia mais nenhum passageiro… os bancos de madeira da carruagem estavam vazios… teria de perguntar ao cocheiro. O lado racional de sua mente deu-lhe um beliscão! Mas ainda estava atordoado… como pôde parar naquele lugar? Um artista entrou no ônibus, pegou uma flauta e começou a tocar para um furão vestido com roupas de passista, que aproximou-se dele e disse: “Mano, tem um trocado?”.

Assustado, abriu os olhos e percebeu o mundo conhecido a seu redor! Conhecia aquele muro, aquele poste, a passarela, o mercado! Fechou o livro, guardou-o na mochila e deu o sinal. Desceu alegre, apesar dos quilômetros que ainda o separavam de sua casa, pois havia desembarcado bem antes de seu ponto habitual. Não estava preocupado, queria apreciar cada lugar conhecido no caminho. Chegou em casa, a esposa perguntou sobre o atraso e ele respondeu sorrindo: “peguei o ônibus errado”.

 Marcelo
 Espero muito que vocês tenham gostado do novo espaço do blog. Até mais!

 

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Por: Lóren Santos | 07/08/2015 | Cultura